As elites académicas, as crianças pobres e a escola democrática

 No dia 31 de Maio de 2019, Guilherme d’Oliveira Martins escrevia no jornal Público, um artigo intitulado Os meus irmãos. A dado passo escreve:

Com o Francisco e o Afonso, a primeiríssima referência que nos une foram os nossos pais, que sempre nos acompanharam e que criaram um clã fantástico. Os pais foram os nossos primeiros educadores e companheiros. Muito do que somos devemos a essa extraordinária presença. E a casa foi sempre o porto de abrigo, o lugar de encontro e de aprendizagem, a oportunidade de renovar energias. (…) E mais adiante lê-se: E se era verdade que nunca nos faltavam actividades mesmo em férias, o certo é que tínhamos programas de estudo intensivos – já que a mãe era imbatível na matemática e nas ciências; e as complexas regras gramaticais também não lhe apresentavam dificuldades. Já quanto à mitologia grega e romana, à história de Arte, à escrita e ao desenho, o pai era o especialista.

 Todo o texto é a narrativa de um ambiente familiar onde os filhos estão constantemente a beber do afecto, da cultura e saber dos pais, num processo envolvente de estímulos ao pensamento, ao conhecimento, à criatividade. Ora, sendo eu nascido em 1955, o oitavo filho de uma família pobre de 12 irmãos, a minha realidade e a dos pobres em geral não poderia ser mais contrastante. Esta situação de muita pobreza é a realidade em que vive a grande parte da população portuguesa.

 Andando eu no meio do gado, fui iniciado nas diversas tarefas do campo pelos 7 anos, em terras arrendadas pelos meus pais, nas horas livres da escola. Feita a 4ª classe, tive uma passagem de 3 anos por um seminário, depois dos quais regressei a casa para estudar no Liceu da Póvoa de Varzim, contra a vontade do meu pai, para quem apenas o trabalho braçal era realmente trabalho – estudar era vida de fidalgo.

 Para ter tempo para estudar usei o expediente de dizer que tinha aulas de manhã e de tarde até às 19:00h; então, ficava as tardes na cidade a estudar e/ou em convívio com alguns colegas, no Diana Bar. Às 7 da tarde tomava a camioneta de regresso a casa.

 A partir dos 16 anos, custeava todas as minhas despesas, dando explicações a colegas, cujo rendimento eu acumulava com uma bolsa de estudos da Gulbenkian, de 600$00 semestrais. Isso me permitia de vez em quando lanchar no café, comprar alguma roupa e material didáctico que andava em falta, designadamente livros. Foi também com esse dinheiro que pude ter consultas de oftalmologia, pois tinha uma ambliopia de nascença no olho direito (10% de visão) e, a partir de dada altura, também o olho esquerdo vinha dificultando cada vez mais a minha vida.

 Concluído o 7º ano (11º) vi-me na situação absurda de voltar para os trabalhos campo. Perdido e angustiado, com essa perspectiva de vida, acabei por abalar para Lisboa, como quem emigra, fugindo de um futuro que matava todos os meus sonhos.

 Embora ambicionasse estudar Medicina, acabei por me formar em Física, concluindo a Licenciatura em 1981, no ramo de Formação Educacional, na Faculdade de Ciências de Lisboa, com 15 valores. Para me sustentar trabalhava 5 horas diárias no bar da Associação de Estudantes, pagas a 50$00 à hora, que acumulava com uma bolsa dos Serviços Sociais da Universidade.

 Depois de alguns anos como professor do ensino secundário, ingressei na carreira universitária, na categoria de Assistente Estagiário, em 1988, tendo passado a Assistente após a conclusão do Mestrado em 1990. Seguiu-se o Doutoramento, passando a Professor Auxiliar em 1997, e acedi à categoria de Professor Associado em 2000. Já os meus 11 irmãos, na sua maioria foram trabalhar para o campo, as obras e as fábricas.

 Pese embora ter tido sucesso académico, por duas vezes paguei o preço de ter nascido pobre. Tive de me privar das vivências próprias da juventude para, com o meu trabalho, suprir as necessidades da vida de um estudante que não podia contar com o apoio da família. Por outro lado, a vivência pessoal da pobreza fez-me reflectir sobre as necessidades de uma escola inadaptada às crianças pobres, o que teve como consequência a minha decisão de construir uma visão da formação de professores adequada às necessidades dos pobres que, deve notar-se, não é prejudicial para os restantes alunos. Era claro para mim que os alunos universitários repetiam enunciados pedagógicos que não entendiam nem tinham ideia nenhuma do que fazer com eles em situações concretas de ensino.

No ensino de crianças é fundamental tornar concreto o abstracto e só depois partir para a abstracção. Se assim não for, só os pais que podem recrear em casa um ambiente de ensino e aprendizagem estimulante podem garantir com segurança o sucesso escolar dos filhos. Esta não é, porém, a escola inclusiva e democrática para todos; é sim, a escola dos filhos dos privilegiados que deixa os pobres para trás.  

 Essa visão revelou-se muito incómoda para a realidade institucional instalada na universidade, o que gerou fortes resistências institucionais e conflitos académicos que marcaram e prejudicaram profundamente a minha vida pessoal e profissional.


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