O Filão de Ouro: A Descoberta que Me Prendeu à Universidade


Em 1986 entrei para o Centro Integrado de Formação de Professores e Educadores de Infância (CIFOPE) da Universidade do Minho e, ao fim de dois anos apenas, eu tinha já sido confrontado com suficientes adversidades para querer abandonar a carreira[1]. Assim, comuniquei ao Presidente do CIFOPE, a minha decisão de sair no final do ano letivo 1990/91, para regressar ao Ensino Secundário, onde já havia lecionado.

Enquanto decorria esse ano letivo de espera, decidi realizar um estudo exploratório, numa escola do 1.º ciclo, onde atuei como professor de uma turma do 4º ano, tendo a professora titular da turma como colaboradora. Dava uma aula de 2h e 30 min a 3h por semana.

Propus-me utilizar as Ciências Experimentais como alavanca para potenciar não apenas as aprendizagens científicas, mas também as de outras áreas do currículo: Matemática, Língua Portuguesa e a Expressão Plástica. A intenção era levar as crianças a pensar, a comunicar de forma oral e escrita, a serem activas na aprendizagem, construindo planos de investigação e execução da investigação em grupo. A investigação começa por um problema em forma de questão.

Eu conduzia um processo de ensino que designei de Ensino Experimental Reflexivo, cuja finalidade era desenvolver as competências cognitivas até ao nível mais elevado que elas pudessem alcançar.

Era uma espécie de utopia, mas eu tinha em mim o sentimento de que havia ali algo de importante para descobrir.

Fiquei fascinado com o que me foi dado observar e vivenciar. Era belo demais observar a alegria e o entusiasmo dos meninos e meninas, absorvidos nas suas investigações. (Resultados igualmente surpreendentes foram obtidos mais tarde, no 1º ano de escolaridade, utilizando idêntica filosofia pedagógica com crianças mais pequenas. [2])

A qualidade das aprendizagens, a inteligência das crianças, a criatividade, a efervescência reflexiva e um entusiamo rigoroso e disciplinado, fizeram-me sentir, bem fundo em mim, que não podia abandonar este projeto.

Eu estava feliz e as crianças estavam felizes, como poderia ir-me embora?

Decidi, pois, ficar na universidade e realizei o meu Doutoramento, concluído em 1996[3], nesta linha de investigação e ensino.

Nessa altura a minha intenção de sair da universidade perdeu sentido... As crianças, tal como o Principezinho, pareciam dizer-me:

“Tu tens a responsabilidade de nos teres cativado, não te podes ir embora.”

E eu dizia com grande entusiasmo, que muitos tinham dificuldade em compreender:

“Descobri um filão cheio de ouro. Vou continuar a extrair ouro, a maior quantidade de ouro que for possível.” 

O filão eram aquelas crianças e as suas mentes inteligentes e criativas, e o ouro eram as extraordinárias aprendizagens que as suas mentes eram capazes de realizar.

Perante o sucesso pessoal e a satisfação que eu alardeava, ouvi comentários desdenhosos do género "tiveste sorte". Como podiam entender o que se estava a passar, perante a ideia comum de que a aprendizagem escolar é algo de difícil e aborrecido para as crianças?

Era uma turma do 4º ano de escolaridade de uma Área de Intervenção Prioritária, ou seja, com uma certa preponderância de alunos de estratos socialmente desfavorecidos.

 Ao fim de algum tempo de ensino, os alunos trabalhavam com autonomia, em trabalho de grupo, e eu circulava pelos grupos, avaliando o processo de aprendizagem: fazia uma pergunta aqui, um comentário acolá, dava novas orientações e assim impulsionava o desenvolvimento dos trabalhos. No final da intervenção, medi resultados extraordinários em termos de competências de pensamento, raciocínio e capacidades de investigação. 

Nesta abordagem de ensino as crianças não aprendem apenas conteúdos de ciências experimentais. Aprendem a linguagem oral e escrita, a matemática, a língua portuguesa, técnicas de registo, fazer relatórios das investigações.

E sobretudo, aprendem a pensar, investigar, cooperar, comunicar oralmente, discutir ideias, ouvir os outros e concordar ou contra-argumentar, enfim aprendem a crescer pessoalmente, socialmente e intelectualmente. Há um pensamento reflexivo individual empoderado pela influência do grupo.

A inteligência cresce, de tal modo que uma parte significativa dos alunos de 9/10 anos conseguem realizar uma tarefa de investigação, realizada em entrevista individual, que requer o controlo de variáveis; ora esta é uma capacidade cognitiva, prevista pelo psicólogo Piaget, apenas pelos 11/12 anos, no seu desenvolvimento natural. Estamos a falar de um avanço de 2 anos.

O aluno que se revelou ao nível dos mais inteligentes das duas turmas participantes, era um aluno de uma família pobre, que não teve aprovação no final do ano lectivo. Mas ele foi quem teve a melhor pontuação na tarefa de investigação final realizada individualmente.

Com essa investigação em sala de aula, compreendi que muito do melhor potencial de inteligência, de criatividade e de aprendizagem das crianças é ignorado por uma escola de lápis e papel, onde apenas os professores têm voz. Isso retira as melhores oportunidades de sucesso escolar a todas as crianças, mas, as que são mais prejudicadas são indiscutivelmente as crianças provenientes de meios sociais mais desfavorecidos.

o verdadeiro ouro não está nos programas, nos manuais ou nas teorias pedagógicas. Está oculto nas crianças que a escola tantas vezes classifica como fracas, desatentas ou incapazes. Basta criar a boa forma de ensinar para que esse ouro venha à superfície.

Foi essa descoberta que me impediu de abandonar a universidade e que continuou a orientar o meu trabalho durante muitos anos. E essa experiência foi também, para mim, uma oportunidade de expandir a minha visão e o meu pensamento, numa universidade que durante muitos anos foi e continua a ser opressora. O futuro não é por aí!



[1] Todavia, só 10 anos depois tomei conhecimento dessa adversidade em toda a sua extensão. Com efeito, foi-me entregue a cópia de uma acta de uma reunião secreta, com a presença do Reitor, na qual se discutiu apenas a instauração de um processo disciplinar à minha pessoa, a pedido do Presidente do CIFOPE, por eu ter escrito um documento de reflexão sobre a aquela unidade orgânica. O Reitor não acolheu a proposta, mas está escrito na acta: “o Professor […] declarou que a partir daquele momento tudo fará para que “ele, Dr. Sá, se vá embora da Universidade”. O facto de tal ameaça figurar na acta de uma reunião não pode deixar de configurar uma certa patologia institucional.

[2] Varela, Paulo (2010) Ensino Experimental das Ciências no 1º Ano do Ensino Básico. Tese de Doutoramento. Universidade do Minho, Braga. https://hdl.handle.net/1822/10668; Sá, Joaquim com Varela, Paulo (2004) Crianças Aprendem a Pensar Ciências. Porto Editora. Porto.

[3] Sá, Joaquim 1996). Estratégias de Desenvolvimento do Pensamento Científico em Crianças do 1º Ciclo do Ensino Básico. Tese de Doutoramento. Universidade do Minho, Braga. https://hdl.handle.net/1822/8165

Comentários

  1. Se todos os professores de 1° Ciclo tivessem este pensamento e não estivessem excessivamente preocupados e obcecados com o "dito programa", teriam melhores resultados.
    Excelente artigo!....

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