O DESTINO DE PORTUGAL ÀS MÃOS DO CATOLICISMO

Estando eu profundamente convicto da minha boa-fé, nos meus propósitos e acções, no âmbito da academia, dos quais resultavam dramáticas consequências para a minha vida e saúde, fui compelido a pungentes questões, que exigiam uma resposta, não só por motivos de racionalidade, mas também pela necessidade de procura do sentido da existência.

- Que universidade é esta? Que interesses e valores se destina a servir e promover?

- Que sociedade é esta, sendo que dela emana esta universidade? Que sociedade promove esta universidade?  

- E, afinal, que país é este em que vivo? Quem somos como povo?

Numa primeira abordagem às últimas duas questões, atentemos no seguinte gráfico da autoria de HarveyGraf[1], um dos principais historiadores da alfabetização[2]. Aí temos as curvas de alfabetização de diferentes grupos de países entre 1850 e 1950. A curva de alfabetização de Portugal, face a outros grupos de países europeus, ao longo de um século, é em si mesma um retrato do país pleno se significado.

 

Começo por assinalar que o núcleo duro da alfabetização europeia encontra-se no Norte e Centro-Norte da Europa, sendo o Sul e os extremos Leste e Oeste europeus menos alfabetizados do que este núcleo duro[3]. Todavia, no começo do século XX, Portugal fica para trás de um conjunto de países (Grécia, Jugoslávia, Bulgária, Roménia e Rússia) com os quais vinha tendo um padrão de alfabetização semelhante.

Portugal torna-se assim um caso singular de dupla periferia no contexto europeu: periferia face ao núcleo duro da alfabetização, e no decorrer do século XX, periferia face aos limites Sul, Leste e Oeste que historicamente foram menos impregnados pela cultura escrita[4].

António Candeias valida esta perspectiva de dupla periferia, socorrendo-se da forma como Harvey Graff organiza os dados contidos naquele gráfico, fazendo uma combinação dos factores: situação geográfica, religião e grau de alfabetização. Os graus de alfabetização são assim ordenados: nível 1 - Europa do Norte Protestante, agrupando os países nórdicos; nível 2 – Europa Ocidental, que junta Inglaterra, País de Gales, França, Bélgica e Irlanda; nível 3 - Europa Católica do Sul e Centro, com a Áustria, a Hungria, a Espanha, a Itália e a Polónia; e nível 4 - Europa Ortodoxa de Leste e Sudeste e Portugal, onde estão a Rússia, os Estados Balcânicos e Portugal[5].

No quadro seguinte podemos dar-nos conta da grande lentidão do nosso país no processo de escolarização da sua população, em comparação com alguns outros países[6].

 

Neste conjunto de países, Portugal apresenta o pior perfil evolutivo de taxas de escolarização entre 1870 e 1930 (13%, 22%, 22%, 21%, 19%, 14%, 27%), sendo no final desse período o país com pior taxa de escolarização, 27%, e Cuba com a segunda pior, 39%, ou seja, mais 12% do que Portugal. A Roménia parte com 7% mas termina esse período de 6 décadas com 59%, mais 32% do que Portugal.

Instituímos a escolaridade obrigatória em 1844, mas precisámos de 120 anos para a tornar extensiva a toda população em idade escolar[7]. No final do século XX, Portugal continuava a mostrar a mais alta taxa de analfabetismo (10%, para 1,7% de média europeia) e o mais baixo nível de qualificações. Entre os 25 e os 34 anos, só um terço dos portugueses tinha o ensino secundário (dois terços em Espanha e na Itália). Os nossos alunos apresentavam os piores resultados em testes internacionais da OCDE e a mais elevada taxa de abandono escolar, tudo isto apesar de um dos maiores investimentos em Educação da Europa[8].

Com a salvaguarda de que a partir de 1870 os países referidos poderão ter tido diferentes ritmos de alfabetização, dificilmente aquele ordenamento será hoje muito diferente. É expectável que os níveis de alfabetização se correlacionem com os valores de literacias linguística, científica e numeracia.

Em 2023, foi realizado um estudo internacional da OCDE, no qual participaram 31 países, cujos resultados foram divulgados em Dezembro de 2024. O estudo avalia os adultos dos 16 aos 65 anos, em proficiência em literacia, numeracia e resolução adaptativa de problemas. As pontuações médias dos adultos portugueses foram de 235 em literacia, 238 em numeracia e 233 em resolução de problemas, claramente abaixo das médias da OCDE, respetivamente 260, 263 e 257 pontos. Os resultados publicados, em 2024, colocam Portugal em 30º lugar, no conjunto dos 31 países[9]. Tais scores têm por objetivo fornecer evidências sobre a forma como o desenvolvimento e a utilização de competências melhoram as perspetivas de emprego, a qualidade de vida e promovem o crescimento económico.

Estes e os resultados que se seguem, mostraram que muito há ainda por fazer em termos de educação de adultos em Portugal.

O sentimento de uma espécie de desvio da normalidade do nosso país, no contexto europeu, perante tais resultados, suscita uma pergunta incontornável: o que foi que nos aconteceu?

Por força das minhas circunstâncias de vida, impunha-se-me perscrutar, tentar compreender a idiossincrasia do país, especialmente as dimensões que nos fragilizam face a grande parte dos países europeus. A singularidade educacional referida, correlativa de outras variáveis e factores, designadamente a condição social e económica dos portugueses, confere um reforçado sentido ao esforço de compreensão do que em nós nos diminui em vez de engrandecer.

Nas minhas interrogações e pesquisa avultam três processos históricos que, no seu conjunto, configuram uma trama de evolução sociocultural, económica e política desfavorável para Portugal: a) o endurecimento da ortodoxia Católica face à Reforma Protestante: a Contra-Reforma; b) um deficiente olhar crítico para dentro do país, face ao enriquecimento fácil da Coroa e dos nobres, por via das conquistas e descobertas do passado; e c) a ditadura salazarista.

Uma das importantes questões que tem sido motivo de reflexão e debate interior na minha vida, é ter sido católico por nascimento e não por opção. Por nascimento tomei uma forte consciência da realidade vivida, da qual me distanciei de forma inequivocamente crítica. Constatei na minha infância e adolescência que as obrigações religiosas das mães prevaleciam muitas vezes sobre os devidos cuidados a prestar aos filhos bem como aos seus deveres escolares[10].

Essa experiência de vida, a observação e a reflexão pessoais, cruzam-se com os contributos de vários autores onde vou beber parte de uma visão do país e do povo que somos. Destaco, nos séculos XX e XXI, os filósofos Eduardo Lourenço (1923 – 2020) e José Gil, e ainda o século XIX, o historiador Joaquim de Oliveira Martins[11] (1845-1894) e o escritor e poeta Antero de Quental (1842-1891). É no catolicismo empedernido que encontrámos um dos maiores factores do nosso atraso como povo e como país. 

A Contra-Reforma com a Inquisição e a Companhia de Jesus, e o salazarismo com o Cardeal Cerejeira, arrastaram o país para a ignorância, atribuindo ao culto religioso a finalidade de afastar as crianças e o povo da alfabetização e do conhecimento. No polo oposto, a visão de Lutero na Reforma Protestante, abriu os caminhos da alfabetização e do conhecimento nos países onde a religião Protestante propunha a libertação dos espíritos em contraste com a resistência aos ventos de mudança por parte da Igreja Romana. Nos países protestantes a alfabetização e o conhecimento eram um importante objectivo a fim de se promover nos cidadãos a leitura directa da Bíblia; pelo contrário, nos países sujeitos ao domínio de Roma, os crentes tinham apenas acesso às interpretações bíblicas do clero, o que descurava o inventivo à alfabetização.


[1]Graff, H. J. (1991). The Legacies Of Literacy. Continuities and contradition in Western culture and society. Bloomingtona and Indianapolis: Indiana University Press.Houston, in Candeias, António. (s. d.) As raízes de hoje: o atraso educativo português no contexto ocidental. Acedido em http://www.cnedu.pt/content/antigo/files/pub/Impacto/CNE_Impacto4.pdf

[2] Candeias, António. (s. d.) As raízes de hoje: o atraso educativo português no contexto ocidental. Acedido em http://www.cnedu.pt/content/antigo/files/pub/Impacto/CNE_Impacto4.pdf

[3]Candeias, António. (s. d.) As raízes de hoje: o atraso educativo português no contexto ocidental. Acedido em http://www.cnedu.pt/content/antigo/files/pub/Impacto/CNE_Impacto4.pdf, pg 28

[4]Candeias, António. (s. d.) As raízes de hoje: o atraso educativo português no contexto ocidental. Acedido em http://www.cnedu.pt/content/antigo/files/pub/Impacto/CNE_Impacto4.pdf, pg 29

[5]Graff, H. J. (1991). The legacies of literacy. Continuities and contradition in Western culture and society.Bloomingtona and Indianapolis: Indiana University Press.Houston, pg378,in Candeias, António. (s. d.) As raízes de hoje: o atraso educativo português no contexto ocidental, pg. 29. Acedido em http://www.cnedu.pt/content/antigo/files/pub/Impacto/CNE_Impacto4.pdf

[6]Candeias, António, (1993). A Situação Educativa Portuguesa: Raízes do Passado e Dúvidas do Presente, Análise Psicológica, 4 (Xl): 591-607, pg 596

[7]Candeias, António, (1993). A Situação Educativa Portuguesa: Raízes do Passado e Dúvidas do Presente, Análise Psicológica, 4 (Xl): 591-607

[8] Ramos, Rui (coordenador); Sousa, Bernardo Vasconcelos; Monteiro, Nuno Gonçalo (2009), História de Portugal, A Esfera dos Livros, Lisboa, pg 769

[9]Relatório Global da OCDE sobre as competências dos adultos – Portugal com desafios na literacia, numeracia e resolução de problemas da população adulta

 https://pessoas2030.gov.pt/2024/12/17/relatorio-global-da-ocde-sobre-as-competencias-dos-adultos/

[10] Sá, Joaquim (2023). O Dizer dos Pobres… Se Pudessem Falar. Primeiro Capítulo. Lisboa.

[11]Merece especial destaque a História de Portugal de Oliveira Martins – autor praticamente desconhecido nos dias de hoje -, pela primeira vez editado em 1879. O extraordinário vigor e desassombro com que desconstrói e dessacraliza muitos dos mitos que ainda hoje fazem parte da nebulosa identitária que nos anestesia, fazem pensar que os intelectuais eram mais livres no século XIX do que o são hoje. Sobre a História de Portugal de Oliveira Martins, escreve Eduardo Lourenço:(…) discurso cultural algum do nosso século XIX – e porventura de sempre entre nós – é estruturalmente mais aberto e por isso mesmo mais livre (…) que o de Oliveira Martins (…).Paradoxalmente, a visão de Oliveira Martins é a menos maniqueísta que até hoje possuímos (…) E é-o menos em virtude da sua decisão ou intuição de a representar nas suas faces mais lamentáveis ou sinistras ou mesquinhas – em oposição ao hagiografismo multímo das visões anteriores e mesmo posteriores – do que pelo facto de conceber e integrar no cerne da sua visão do facto histórico uma dose de indecisão, de acaso, como ele escreveu, sem o qual a visão da História é simples História Natural. Oliveira Martins não desconhece a hierarquia dos factores quase naturais de que depende a evolução histórica – meio, raça, condições sociais e económicas (…) – mas na análise e apreciação da actividade humana, maximamente naquela que de si deixou memória, concentra em si o poder de dar sentido ao fluxo anónimo dos actos e acontecimentos, inclui sempre essa realidade obscura, essa opacidade, essa ignorância dos fins reais dos actos que permite que a História como história de vontades e desejos manifestos ou obscuros seja um drama e não uma viagem com destino antecipado e certo.

9Lourenço, Eduardo (1995). Lembranças de Oliveira Martins História e Mito, In Oliveira Martins e os Críticos da História de Portugal, Instituto da Biblioteca Nacional do Livro,Lisboa, 1995, pg 19-20.

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